Poesia & poemas

12 maggio 2018

Fim de mundo

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 3:01 pm
Como em dia qualquer, a vida avança.
Eis quando, sem motivo, se enfraquece
a rigidez geométrica do espaço.
Súbito o sol estanca o seu girar
e se eterniza em puro meio-dia.
Noites, contudo várias, simultâneas
irrompem dos abismos; outras luas
derramam seu palor – maciamente
o equilíbrio do mundo se desfaz.

Nenhum estrondo turva, todavia,
o sossego do mundo em seu desfecho,
e a paisagem terrestre pouco sofre.
Os templos não desabam, edifícios
permanecem erguidos, e das torres
a sombra invade a rua, cautelosa;
não se interrompe o florescer nos campos.
Apenas, vagarosa, já se escoa
dos seres a substância que os anima.
Os pássaros se esquecem dos seus cantos,
os cavalos, aflitos, se prosternam,
e dos olhos dos bois vai se apagando
a solene humildade; silenciosa
uma estéril brandura envolve as feras.

À terra o mar devolve os seus defuntos,
mas rejeita-os a terra. Já são muitos
aqueles que fugiram de seus túmulos
e em confusa linguagem se interpelam
ante o assombro do vivo face à morte.

O assombro mesmo é curto: se dissolve
quando o barro que deu aos seres forma,
e trânsito aos amores e desejos,
vazio dos adornos incorpóreos
então se abraça à argila primitiva.
Sobra dos homens algo sobre o mundo
– pasto do tempo: as vestes e os sapatos.

A pena de existir logo abandona
o murcho coração das criaturas
e vai pousar agreste sobre as pedras
e as pedras se interrogam, conturbadas.
O mistério da vida enfim se irmana
ao mistério da morte: assim fraternos
emigram do terreno, sobrepairam,
escarnecem dos seres dissipados
e aos poucos vão tecendo a nebulosa,
berço talvez do próximo universo.

Thiago de Mello

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11 maggio 2018

Se sul treno ti siedi al contrario…

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 4:32 pm

200178589-001

Se sul treno ti siedi al contrario
con la testa girata di là
vedi meno la vita che viene
vedi meglio la vita che va.

 

Vivian Lamarque

Velha canção

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 4:30 pm

Não penses que não te espero
na aparente indiferença.
Esta fingida descrença
só disfarça desespero.

Se a falsa máscara fria
pudesse quebrar esta ânsia
saberias que a constância
é meu pão de cada dia.

Um pudor duro e severo
esperar desesperado
é o que nutre este pecado
de querer como te quero.

Destarte – tímido louco –
não ouso sondar tua alma
e nesta insofrida calma
dia a dia morro um pouco.

 

Menotti Del Picchia

(1892-1988)

Lui o un altro che differenza fa

Filed under: Libri,Poesie — patriziaercole @ 10:48 am

2-Patrizia-Valduga

Lui o un altro che differenza fa
se poi ho da sentirmi sempre sola?
Sola con la mia moribilità…
se esistesse questa bella parola…

 

Patrizia Valduga (Castelfranco Veneto, 1953)

da Quartine. Seconda centuria (Einaudi, 2001)

10 maggio 2018

O testemunho

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 11:34 pm

I – Ser

Num campo de silêncio,
onde pastam manhãs,
estou – sempre que sou.

Quis-me o campo por senda:
em meu lúcido passo,
entanto, lá não vou.

Atendo a um chamamento
feroz, tímido e brando:
são vozes maduras.

Toda recusa é vã:
asas me erguem, e sou.
Ser é resposta. E dói.

É um campo de silêncio:
oh! palpitante berço
e pasto roçagante

de infinitas manhãs
que se cantam nascidas
para a noite do mundo.

De silêncio, e contudo
ali se escuta a dor
crescer, fingida em relva.

Essa relva me sabe.
O coração é a boca
que se crispa a seu travo.

Pasto dor e silêncio
no campo onde sou.

II – Ter

Dor sofrida é salário.

O amargo que mastigo
transmuda-se na moeda
com que me cumpro e compro

o segredo fecundo
adormecido há invernos
na boca das auroras.

Para erguê-las ao campo
de silêncio onde pastam
– e de onde me chamaram -,

antes entrego as mãos
às lâminas de brasa
que me buscam, ferozes:

matutinos orvalhos,
serenos de idas tardes,
sepultos semivivos.

Com essa dor se cunha
a moeda em cuja efígie
vê-se o perfil dos anjos.

Meu salário é meu júbilo:
ao regressar-me, esplendem
alvíssaras profundas

no momento em que entrego
ao mundo – envolta em cânticos –
humilde sempremanhã.

III – Amar

No campo de silêncio
onde, existindo, sou,
não me retardo. Tardo

a ser, e quando sou
– sou pouco. O muito é a dor.
As têmporas estalam.

O tempo que ficou
e, aquém de mim, me espera
reclama o existir turvo.

Então, perdido, torno,
a caminho transbordo,
transvio-me de mim:

quando chego, sou pouco.
Crestam-me a vida vã
saudades de ter sido.

A dor é eco longínquo
de grito soterrado.
O ser é estrela extinta,

lua de treva em céu
já desabado, pedra
lavada pela chuva.

Permaneço, contudo,
e comigo a amargura,
quando o amor é o caminho

que em mim se faz e faz-me
correr ao campo branco
onde alvoradas sonham,

onde me espera o pasto
onde a fome fareja
a dor antiga, eterna:

dor esplêndida e dura
– dor de ser e de amar.
Porque de amar, perdura.

E trago dessa viagem
uma treva mais doce
para a noite do mundo.

Às vezes é uma aurora
que me aclara também:
e vejo em amargor

a face que me coube,
a face dessa noite
noite tão noite e fria

que é minha e de meu mundo,
ai, mundo meu não mundo,
perdido, em pranto, e pouco.

O muito em mim, e grande,
e sofredor grandioso
– só mesmo o coração:
pois nele cabe Deus.

Thiago de Mello

Ars poetica – una polemica

Filed under: Libri,Poesie — patriziaercole @ 11:26 pm

Nina_C

Io sono io.

Sono personale,

soggettiva, intima, singolare,

confessionale.

Tutto quel che mi accade e si ripete

accade a me.

Il paesaggio che descrivo

sono io stessa.

Se vi interessano

gli uccelli, gli alberi, i fiumi,

consultate i libri degli esperti.

Io non sono un dato uccello,

un dato albero,

un dato fiume.

Io sono registrata solo

come un Sé,

Io, ovvero Io.

 

Nina Cassian (Galaţi, 1924), da C’è modo e modo di sparire. Poesie 1945-2007 (Adelphi, 2013)

 

Ars poetica – o polemicã

 

Eu sunt eu.
Sunt personalã,
subiectivã, intimã, particularã,
confesivã.
Tot ce se reîntâmplã
mi se întâmplã mie.
Priveliştea pe care o descriu
sunt eu însãmi.
Dacã vã intereseazã
pãsãrile, copacii, râurile,
cercetaţi cãrţile de specialitate.
Eu nu sunt o anume pasãre,
un anume copac,
un anume râu.
Eu sunt consemnatã doar
ca un Sine,

Eu, adicã Eu.

Língua Brasileira

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 11:22 pm

O povo menino
no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.

A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.

No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.

Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.

Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.

E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!

Menotti Del Picchia
(1892-1988)

8 maggio 2018

Cedere il posto agli anziani e agli ammalati

Filed under: Libri,Poesie — patriziaercole @ 9:56 pm

Nina

Viaggiavo in piedi
eppure nessuno mi offrì il posto
anche se ero di almeno mille anni più anziana,
anche se portavo, ben visibili, i segni
di almeno tre gravi malanni:
Orgoglio, Solitudine e Arte.

 

Nina Cassian (1924 – 2014)

Nina Cassian, C’è modo e modo di sparire (poesie 1945-2007). A cura di Ottavio Fatica; traduzione di Anna Natascia Bernacchia e Ottavio Fatica, Adelphi, 2013

Canção do meu sonho errante

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 9:48 pm

Eu tenho a alma errante
e vago na terra a sonhar maravilhas…

Não paro um momento!
Eu busco irrequieto o meu sonho inconstante
e sou como as asas, as velas, as quilhas,
as nuvens, o vento…

Eu sou como as coisas inquietas: o veio
que canta na leira: a fumaça que voa
na espira que sobe das achas; o anseio
dos longos coqueiros esguios;
a esteira de prata que deixa uma proa
no espelho dos rios.

Ru tenho a alma errante…

Boêmio, o meu sonho procura a carícia
fugace, procura
a glória mendaz e preclara.
Sou como a vela fenícia
ao largo, uma vela distante…

Eu tenho a alma errante….

E me sinto uma estranha delícia
em tudo que passa e não dura,
em tudo que foge e não pára…

Menotti del Picchia
(1892-1988)

Strinsi le mani sotto la scura veletta

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 9:12 pm

AnnaAchmatova.jpg

Strinsi le mani sotto la scura veletta…
“perché sei pallida quest’oggi?”
– Perché di acerba tristezza
L’ho ubriacato sino a stordirlo.

Come dimenticare? Egli uscì barcollando,
con le labbra contratte dalla pena
Io corsi giù senza sfiorare la ringhiera,
corsi dietro a lui sino al portone.

Ansimando gridai: “Tutto è stato
uno scherzo. Se te ne andrai morirò.”
Sorrise con aria tranquilla e sinistra
e mi disse: “non stare nel vento”

1912

 

Anna Achmatova (1889 – 1966)

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