Poesia & poemas

10 maggio 2018

O testemunho

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 11:34 pm

I – Ser

Num campo de silêncio,
onde pastam manhãs,
estou – sempre que sou.

Quis-me o campo por senda:
em meu lúcido passo,
entanto, lá não vou.

Atendo a um chamamento
feroz, tímido e brando:
são vozes maduras.

Toda recusa é vã:
asas me erguem, e sou.
Ser é resposta. E dói.

É um campo de silêncio:
oh! palpitante berço
e pasto roçagante

de infinitas manhãs
que se cantam nascidas
para a noite do mundo.

De silêncio, e contudo
ali se escuta a dor
crescer, fingida em relva.

Essa relva me sabe.
O coração é a boca
que se crispa a seu travo.

Pasto dor e silêncio
no campo onde sou.

II – Ter

Dor sofrida é salário.

O amargo que mastigo
transmuda-se na moeda
com que me cumpro e compro

o segredo fecundo
adormecido há invernos
na boca das auroras.

Para erguê-las ao campo
de silêncio onde pastam
– e de onde me chamaram -,

antes entrego as mãos
às lâminas de brasa
que me buscam, ferozes:

matutinos orvalhos,
serenos de idas tardes,
sepultos semivivos.

Com essa dor se cunha
a moeda em cuja efígie
vê-se o perfil dos anjos.

Meu salário é meu júbilo:
ao regressar-me, esplendem
alvíssaras profundas

no momento em que entrego
ao mundo – envolta em cânticos –
humilde sempremanhã.

III – Amar

No campo de silêncio
onde, existindo, sou,
não me retardo. Tardo

a ser, e quando sou
– sou pouco. O muito é a dor.
As têmporas estalam.

O tempo que ficou
e, aquém de mim, me espera
reclama o existir turvo.

Então, perdido, torno,
a caminho transbordo,
transvio-me de mim:

quando chego, sou pouco.
Crestam-me a vida vã
saudades de ter sido.

A dor é eco longínquo
de grito soterrado.
O ser é estrela extinta,

lua de treva em céu
já desabado, pedra
lavada pela chuva.

Permaneço, contudo,
e comigo a amargura,
quando o amor é o caminho

que em mim se faz e faz-me
correr ao campo branco
onde alvoradas sonham,

onde me espera o pasto
onde a fome fareja
a dor antiga, eterna:

dor esplêndida e dura
– dor de ser e de amar.
Porque de amar, perdura.

E trago dessa viagem
uma treva mais doce
para a noite do mundo.

Às vezes é uma aurora
que me aclara também:
e vejo em amargor

a face que me coube,
a face dessa noite
noite tão noite e fria

que é minha e de meu mundo,
ai, mundo meu não mundo,
perdido, em pranto, e pouco.

O muito em mim, e grande,
e sofredor grandioso
– só mesmo o coração:
pois nele cabe Deus.

Thiago de Mello

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Ars poetica – una polemica

Filed under: Libri,Poesie — patriziaercole @ 11:26 pm

Nina_C

Io sono io.

Sono personale,

soggettiva, intima, singolare,

confessionale.

Tutto quel che mi accade e si ripete

accade a me.

Il paesaggio che descrivo

sono io stessa.

Se vi interessano

gli uccelli, gli alberi, i fiumi,

consultate i libri degli esperti.

Io non sono un dato uccello,

un dato albero,

un dato fiume.

Io sono registrata solo

come un Sé,

Io, ovvero Io.

 

Nina Cassian (Galaţi, 1924), da C’è modo e modo di sparire. Poesie 1945-2007 (Adelphi, 2013)

 

Ars poetica – o polemicã

 

Eu sunt eu.
Sunt personalã,
subiectivã, intimã, particularã,
confesivã.
Tot ce se reîntâmplã
mi se întâmplã mie.
Priveliştea pe care o descriu
sunt eu însãmi.
Dacã vã intereseazã
pãsãrile, copacii, râurile,
cercetaţi cãrţile de specialitate.
Eu nu sunt o anume pasãre,
un anume copac,
un anume râu.
Eu sunt consemnatã doar
ca un Sine,

Eu, adicã Eu.

Língua Brasileira

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 11:22 pm

O povo menino
no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.

A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.

No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.

Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.

Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.

E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!

Menotti Del Picchia
(1892-1988)

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