Poesia & poemas

23 giugno 2017

NAO HÁ VAGAS

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 5:00 pm

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

 

Ferreira Gullar

 

NON C’È POSTO

Per il prezzo dei fagioli
non c’è posto nella poesia. Per il prezzo
del riso
non c’è posto nella poesia.
Non c’è posto nella poesia per il gas
la luce il telefono
la sottrazione
del latte
della carne
dello zucchero
del pane.

L’impiegato pubblico
non entra nella poesia
con il suo stipendio da fame
la sua vita chiusa
in archivi.
Come non entra nella poesia
l’operaio
che smeriglia il suo giorno d’acciaio
e carbone
nelle officine buie.

– perché la poesia, signori,
è chiusa:
“non c’è posto”
Entra nella poesia solo
l’uomo senza stomaco
la donna di nuvole
la frutta senza prezzo

La poesia, signori,
non puzza
né profuma

 

 

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IDENTIFICAZIONE

Filed under: Libri,Poesie — patriziaercole @ 4:48 pm

szymborska_wislawa

Hai fatto bene a venire – dice.

Hai sentito che giovedì è caduto un aereo?

Be’, sono venuti a cercarmi

proprio a questo proposito.

Pare che lui fosse nella lista passeggeri.

Be’, che vuol dire, può aver cambiato idea.

Mi hanno dato un cachet per tenermi su.

Poi mi hanno mostrato qualcuno, non so chi.

Tutto nero, bruciato, eccetto una mano.

Un brandello di camicia, un orologio, un anello.

Mi sono infuriata, perché di certo non era lui.

Non mi avrebbe fatto lo scherzo di ridursi così.

E di camicie simili sono pieni i negozi.

E quell’orologio è un orologio normale.

E quei nostri nomi sul suo anello

sono nomi molto comuni.

Hai fatto bene a venire. Siediti qui accanto.

Lui, in effetti, doveva tornare giovedì.

Ma quanti giovedì ci sono ancora nell’anno.

Ora metto sul fuoco il bollitore per il tè,

mi lavo i capelli, e poi, che farò poi,

proverò a svegliarmi da tutto questo.

Hai fatto bene a venire, là dentro faceva freddo,

e lui solo con quella specie di sacco a pelo di gomma,

lui, cioè quel povero disgraziato là.

Ora metto sul fuoco il giovedì, lavo il tè,

perché questi nostri nomi sono in fondo comuni.

 

 

Wislaswa Szymborska

 

Poesia tratta da La gioia di scrivere – Tutte Le Poesie (1945-2009), a cura di Pietro Marchesani Adelphi edizioni, Milano 2009.

Wieslawa Szymborska (Kórnik, 2 luglio 1923 – Cracovia, 1º febbraio 2012) è stata una poetessa e saggista polacca, ed è Premio Nobel per la Letteratura del 1996.

Ao volante do Chevrolet

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 4:39 pm

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

 

Álvaro de Campos, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa

(1888-1935)

5 giugno 2017

Lo stretto delle mani

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 3:29 pm

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Le nostre mani si sono unite,

Soltanto due mani.

Ma è come se

Non fossero le nostre mani,

Ma… soltanto uno stretto:

Ci siamo mescolati,

Come due mari vicini,

A lungo divisi…
Paruyr Rafaelovič Kazarjan, una delle voci più rilevanti della poesia armena del XX secolo

Horas Rubras

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 3:02 pm

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Oiço olaias em flor às gargalhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve e branca e mist’riosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, in “Livro de Sóror Saudade”

4 giugno 2017

Non lasciare che salga l’amarezza

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 10:58 pm

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Non lasciare che salga l’amarezza
fin qui, fino al limite di guardia.
E’ una viscida melma che intralcia
il tuo passo di chiaro futuro

Verrà il sole. La melma rappresa
sarà letto a svettanti girasoli.
Non mi ricorderò dell’amarezza,
preistoria di cui nulla si sa.

Maria Luisa Spaziani
(La luna è già alta)

Velhinha

Filed under: Poesie — patriziaercole @ 10:45 pm

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! …”
Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!
Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente …
Já murmuro orações … falo sozinha …
E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos …

Florbela Espanca
Livro de Mágoas

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